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A Ameaça dos mortos PDF Imprimir E-mail
Escrito por administrador   
Qua, 07 de julho de 2004 08:54

Falar da contaminação da água num mundo em que os recursos naturais foram ignorados e desprezados durante centenas de anos pode parecer assunto corriqueiro, mas não quando se fala na participação de cemitérios nesse processo.
Dificilmente alguém dá a devida atenção ao tema, talvez pelo fato de os cemitérios serem monumentos à memória daqueles que morreram e que os vivos fazem questão de perpetuar ao longo do tempo.

Este tipo de construção adquiriu a condição de inviolabilidade no que tange à pesquisa científica nos seus diferentes aspectos. Muitas vezes, a pesquisa ligada a este tema é vista com olhares de reprovação.

Força-nos a lembrar de um lugar para onde vão entes queridos, sonhos e lembranças.
Admitir que somos capazes de destruir a natureza mesmo depois de mortos é algo impensável para a maior parte da população. Mesmo sabendo que já nascemos poluindo. Basta lembrar dos medicamentos usados no parto, do xampu que lavamos os cabelos, do detergente para lavar louça e do remédio que tomamos para a gripe.
Para realizar este livro-reportagem, visitamos cemitérios e literalmente pisamos em ossos para conhecer de perto a realidade daquilo que, até então, só havíamos ouvido falar ou lido nas poucas teses acadêmicas encontradas. O primeiro impacto foi assustador: ossos espalhados pelo chão, covas semi-abertas pela água da enxurrada, vestes funerárias espalhadas por toda parte, funcionários sem qualquer tipo de equipamento de proteção pessoal, mesmo durante o processo de exumação. A retirada das ossadas no Cemitério Municipal de Vila Nova Cachoeirinha, o 2º maior de São Paulo com 300 mil metros quadrados de extensão, inaugurado em 1.949, é feita em qualquer horário do dia, sob os olhos da população carente que utiliza o cemitério como atalho para chegar ao outro lado do bairro. Diante de tamanha falta de respeito à memória dos que ali estavam enterrados, às famílias, aos empregados, e ao meio ambiente, passamos, então, a olhar para o cemitério não mais como um lugar assustador, mas como uma fonte potencial de poluição.

O problema da contaminação do solo por cemitérios existe mas é pouco abordado na mídia. Talvez por isso se arrasta ao longo de tanto tempo, prejudicando diretamente os que não dispõem de informação e, indiretamente, toda a população que sofre com a proliferação de doenças infecto-contagiosas.
É constante a preocupação com o futuro da água potável no mundo e muito se fala sobre a economia e a preservação das fontes e recursos hídricos, cada vez mais escassos na humanidade. Rios, lagos e nascentes são o foco das discussões sobre a conservação do meio ambiente. Mas há outra importante fonte ameaçada: o lençol freático, responsável por 95% da água consumida no planeta.
O risco aumenta com falta de políticas ambientais e cuidados sanitários em cemitérios públicos. De acordo com a tese desenvolvida pelo Prof. Dr. Bolivar Antunes Matos, do Instituto de Geociências da USP (Universidade de São Paulo) o maior problema está nos cemitérios administrados pelos municípios, onde os sepultamentos ocorrem em covas rasas e diretamente no solo, sem qualquer tipo de proteção.
Em São Paulo, existem 14 cemitérios particulares e 23 públicos. Destes, 75% apresentam algum tipo de problema ambiental ou sanitário.
O Cemitério Municipal Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte de São Paulo, é um exemplo de solo contaminado, falta de higiene e de condições sanitárias adequadas. Localizado ao pé da Serra da Cantareira, a formação geológica deste cemitério possibilita o escape do necrochorume para a superfície e para o lençol freático, prejudicando comunidades vizinhas.
Ao cavar poços irregulares nas proximidades desses cemitérios, a população carente que mora no entorno corre o risco de consumir água potencial-mente contaminada pelo necrochorume, segundo pesquisa coordenada pelo Prof. Dr. Leziro Marques.
Outro pesquisador da USP, Prof. Dr. Alberto Pacheco, detectou bactérias e vírus capazes de transmitir doenças como poliomielite, meningite e hepatite A, por exemplo, em amostras de água retiradas do solo do Cemitério Municipal Vila Nova Cachoeirinha.
Por força da fiscalização impulsionada pela resolução do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente –, os cemitérios particulares vivem uma realidade bem diferente, e já desenvolvem mecanismos de proteção aos mananciais. Atentas ao impacto ambiental e de olho no mercado fúnebre ecologicamente correto, funerárias investem cada vez mais no desenvolvimento de soluções para a contaminação do solo e do lençol freático. Alternativas viáveis que estão longe da realidade dos cemitérios públicos brasileiros.
Apesar das constantes campanhas e manifestações sociais e institucionais pró-meio ambiente, ainda há muito o que se fazer para proteger os recursos naturais.
Apesar de pouco divulgado, o problema é preocupante, já que 95% da água potável do mundo está no subsolo, segundo a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas – ABAS.
Os dados levantam uma polêmica: o que fazer para evitar que o corpo humano contamine fontes preciosas de água subterrânea após a morte?
Por outro lado, há quem conteste os resultados apontados. Enquanto não se chega a uma conclusão única sobre a real possibilidade de contaminação das águas subterrâneas, o mercado desenvolve alternativas para evitar que o líquido atinja o solo.

 

Última atualização ( Sáb, 10 de maio de 2008 17:15 )
 

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